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Parir em Paz

Parir em Paz

Nascer em casa

Tenho de vos confessar que a revista Mãe Ideal não é de todo a minha preferida, mas fiquei surpresa ao encontrar esta reportagem...


"A gravidez, o parto e o nascimento são experiências partilhadas pelas mulheres de todo o Mundo


Há alguns anos, uma mulher recém-chegada de Espanha, com dois filhos pequenos e grávida de cinco meses, veio ao consultório e disse-me: "Quero ter este filho na minha casa, estou acompanhada por um casal de amigos e gostava que estivesse lá para cuidar de qualquer situação imprevista.

De qualquer maneira o parto será assim, mesmo que não aceite estar presente, mas seria mais tranquilizador que pudesse contar consigo". Depois desta primeira entrevista e durante as consultas posteriores fui-me informando da sua história pessoal e familiar, do mundo das suas necessidades, alegrias, receios e desejos, e assim pude compreender melhor a sua decisão.

A firme determinação desta mulher confrontou-me com a minha experiência e treino médico. Propunha-me desistir de um conceito quase sagrado: o parto e o nascimento deixariam de ser um "acontecimento médico". Também me obrigou a enfrentar os meus próprios desejos e batalhas profissionais.

Confrontavam-se assim mal-estares acumulados por uma prática que não me satisfazia, por uma atenção institucional repleta de ritos tecnológicos justificados num melhor cuidado de saúde, e um desempenho profissional carregado de rotinas e normas que parecem impossíveis de ser repensadas e muito menos questionadas.


Uma experiência vital

A gravidez decorreu segundo os cânones do que em obstetrícia se denomina "gravidez de baixo risco", pelo que não havia nenhum motivo para que o parto não decorresse de acordo com os desejos da mãe.

Assim, Ana Maria inicia o seu trabalho de parto na companhia de um casal de amigos e deslumbra-se e deslumbra-nos com uma experiência vital única.

A explosão das suas sensações criou um clima em que os sons, odores, exclamações e gestos fluíam numa harmonia de qualidade inédita para os meus sentidos.

Com a minha atenção vigilante, assisti a um nascimento na posição escolhida pela mulher e com o suporte afectivo dos seus amigos.

Posto o bebé no regaço da sua mamã e em excelentes condições terminou esta maravilhosa cena. Cena que me impulsionou, durante os anos posteriores, a uma aprendizagem da profissão, cuja pedra fundamental é a disposição permanente a escutar a mulher, suas opiniões, desejos e necessidades.

Vinte anos decorreram desde esse episódio e hoje uma vasta experiência permite-nos dar uma nova definição do acontecimento do parto e do nascimento, como um facto essencialmente social e afectivo que sucede no corpo de uma mulher e seu marido.


Um lugar seguro

A partir da década de 40 o internamento hospitalar para o parto foi considerado a forma mais segura para ter um filho. Esta hipótese impõe-se através de argumentos que têm em atenção normas de higiene óptimas e a possibilidade de dispor de uma equipa profissional apta para atender as necessidades do bebé e da mamã.

No entanto, não existe nenhuma evidência que justifique que o parto numa instituição oferece maior segurança para as grávidas de baixo risco.

Mais ainda, existem provas de que a morbilidade (possibilidade de doença) é mais elevada entre as mães e os bebés nascidos dentro do sistema de saúde.

Provavelmente, o mito do risco do parto em casa é sustentado pelo elevado número de nascimentos caseiros que não foram devidamente planificados e que por isso careceram da atenção de profissionais ou pessoas treinadas, situação que certamente implica um risco maior.

Um parto e um nascimento planificados, com uma equipa que dedique a devida atenção e tome as precauções de cuidado apropriado, não representam um risco elevado.

Precisamente, a ausência de toda a rotina médica que altere a natureza espontânea do parto e a ternura do clima gerado pelos pais diminui a possibilidade de problemas inesperados. De todos os modos, o risco sempre se contempla.

Por isso se procura previamente um espaço institucional para o qual possa transferir-se a mamã em caso de necessidade. Não ter em atenção estas medidas tornaria perigosa a decisão de dar à luz em casa.


Regressar ao natural

O movimento alternativo por novas expressões na atenção do parto e do nascimento que incluem o parto domiciliário é uma reacção de muitas mulheres e homens às práticas médico-obstétricas mecanicistas e paternalistas que se desenvolveram desde os inícios do século pas-sado.

A procura de "o natural" não é uma moda, é uma escolha. É uma maneira mais autêntica e profunda de ligar-se com a vida que impele um casal a recusar a "medicalização" do parto que supõe a imposição de rotinas desnecessárias, e convida a mulher a dispor do seu corpo segundo indiquem as suas próprias sensações e a dar à luz esse filho na posição desejada: sentada, de cócoras, na água, de joelhos.

Tudo isto é absolutamente possível em qualquer espaço mesmo numa maternidade ou num hospital para aqueles casais que não renunciam às suas aspirações de sentir-se protagonistas plenos deste acontecimento único.

O parto em casa ressurge na nossa sociedade como uma reacção às experiências de muitos nascimentos institucionais, que embora efectuados de acordo com as normas de atenção da saúde, descuidam as medidas de prevenção psicológicas, sociais e biológicas.

Nesse contexto, realizam-se internamentos e intervenções muitas vezes inadequados para a atenção e cuidado da maternidade e do parto, seguindo modelos de condução médica mas descuidando os aspectos afectivos das mães e dos seus filhos.

Uma investigação profunda revelaria, como o demonstra a nossa experiência, o valor que tem a influência do ambiente no momento do nascimento para o saudável desenvolvimento do bebé.


Uma tendência crescente

Em vários países, incluindo o nosso, observa-se uma proporção crescente de partos que têm lugar em casa, e alguns estudos científicos sugerem que entre 10 e 14% das mulheres escolheria esta opção se lhes fosse dada a oportunidade.

Reino Unido e Holanda são dois dos países que estão à cabeça desta lista. Desde há séculos que se regista nas mulheres holandesas uma marcada decisão por um parto natural.

Mais de um terço dos nascimentos acontecem em casa, e o parto considera-se um acto normal, que não exige intervenções médicas salvo no caso de situações de risco declarado.

A conclusão das investigações é que para as mulheres com gravidezes de baixo risco o parto em casa é uma decisão segura que tem resultados tão fiáveis como os que estabelece a comunidade médica.

Tenhamos em atenção que a Holanda é um dos países com uma das taxas mais baixas de mortalidade perinatal no mundo.

Apesar dos fortes argumentos contra o parto em casa por parte do sistema predominante, um número cada vez maior de mulheres pede a atenção em casa.

Vale a pena considerar que num parto domiciliário o baixo nível de participação médica contrapõe-se com as intervenções desnecessárias que podem realizar-se nas instituições, que criam pseudo-problemas e finalmente terminam incrementando o número de cesarianas.

Neste sentido, o ambiente caseiro promove partos muito menos problemáticos. A nossa resposta ao desejo das mulheres é oferecer a possibilidade do parto em casa a quem o desejar.

É um direito escolher como, onde e com quem estar acompanhado no momento de ter um filho.


Por um parto mais humano

As mulheres que procuram o ambiente do lar para ter o seu filho costumam ter uma grande determinação na sua decisão.

Estão dispostas a atender a influência da sua própria natureza e confiam mais nos seus mecanismos intuitivos do que nas advertências ou recomendações do obstetra.

Reclamam por uma maior intimidade que aquela que lhes oferece o meio institucional. Sentem-se menos ansiosas pelo parto e mais confiantes em si mesmas.

Em casa não há induções nem conduções do parto, e tão pouco analgesias medicamentosas. Os partos decorrem de joelhos, sentadas, de cócoras, de gatas ou em pé.

Movimentos, massagens, imersão na água, assim como liberdade para escolher a posição desejada, são os recursos utilizados para aliviar a dor.

As mulheres que desejam dar à luz em casa são um grupo minoritário da população feminina, mas é um grupo numeroso aquele que se aproxima à procura de alternativas que humanizem o parto e o nascimento, mesmo no âmbito de uma instituição.

O debate sobre a livre escolha começou, e o aspecto mais significativo é o lugar onde decorre o parto: em casa ou numa instituição.


O direito a escolher

Planear um parto em casa implica uma atitude prévia e particular em relação à saúde, estilo de vida, considerações sobre a gravidez e a criança, responsabilidade, compromisso e independência.

Mas o parto em casa deve ser sempre assistido por uma equipa profissional organizada para esse propósito, que deve estar altamente comprometida com as necessidades afectivas e emocionais dos pais e que, ao mesmo tempo entenda que o protagonismo do parto e do nascimento é da família e não da equipa médica.

A nossa atitude face ao desejo dos casais é dar-lhes a liberdade para que eles façam o que sentem necessidade de fazer, no local que entenderem: em casa ou na instituição.

É uma proposta de liberdade onde cada um se liga consigo próprio e tem acesso ao que acredita que vai ser melhor e mais seguro para si. O que fica claro é que estaremos lá, para ajudar onde for necessário.

Algumas das razões pelas quais uma mamã escolhe ter o seu filho em casa, são:

Evitar intervenções desnecessárias.
Estar num cenário familiar para sentir-se mais descontraída e com a sensação de um maior controlo.
Receio ao dispositivo hospitalar.
Ter a possibilidade de estar acompanhada numa situação de afecto e respeito.
Experiências anteriores próprias ou alheias.
Descoberta desta alternativa através de revistas ou livros que propõem o melhoramento da qualidade de vida.
Muitas das mulheres dos quatro primeiros grupos justificam estes motivos devido a ter vivido experiências anteriores de mau trato e abandono durante a atenção hospitalar.


As razões pelas quais uma mamã escolhe o internamento, são:

Segurança.
Desconhecimento de outras opções.
Acatamento de um sistema para o qual é importante que o médico se sinta à vontade para desenvolver a sua tarefa. "

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